Sócrates Santana*
Cinco dias após a Festa de Iemanjá, o comentarista Paulo Roberto Falcão desembarca em Salvador. Horas mais tarde, o presidente Marcelo Guimarães Filho o anuncia como o novo treinador do Esporte Clube Bahia. Substituiu o retranqueiro Joel Santana. Uma coincidência pouco valorizada. Antes de ingressar na seleção brasileira, Falcão sucedeu o defensivo Sebastião Lazaroni. E o mesmo ocorreu no Internacional, após dirigir o time retraído do técnico Celso Roth.
A história de Falcão, obviamente, tem um vínculo naturalmente relacionado a seleção brasileira de 1982. Sinônimo de um futebol ofensivo e virtuoso, o time de Telê Santana encantou, mas, não conquistou o mundo. Após a sequência de três títulos em quatro copas do Brasil de Pelé (1958-1962-1970) e da assombrosa revolução tática da idolatrada "Laranja Mecânica", liderada pelo astro Johan Cruijiff e idealizada pelos holandeses Jack Reynolds e Rinus Michels, o país do futebol surgia como o único lugar do planeta capaz de mostrar uma outra saída para o futebol total proposto pelo Ajax e o carrossel holandês. A seleção de 1982, portanto, carregava como o mito de Atlas, o peso do mundo nas costas. O título não veio. Telê Santana, contudo, inventou um novo futebol.
Mais veloz do que a seleção de 70, o time de 82 tocava a bola, mas, principalmente, explorava as laterais do gramado com Leandro e Júnior. Diferente do carrossel holandês, o esquema de Telê não alternava as posições entre os jogadores com a frequência sugerida pela escola dos países baixos. Igualmente a canção do sambista Riachão, Telê valorizava o ditador popular: "cada macaco no seu galho".
A grande diferença ficava por conta da qualidade técnica de duas posições específicas dentro do esquema tático de Telê: os volantes e os laterais. Era inaugurado o chamado elemento surpresa e, momentaneamente, abolida a condição do conservador "frente de zaga": aquele jogador "raçudo", carrancudo e, popularmente conhecido como cabeça de bagre. Quem não lembra de Lima Sergipano?
Sem trazer a taça para a casa, o time que reunia uma das mais refinadas safras do futebol brasileiro também foi marcado pelo o estigma do futebol arte sem troféus, especialmente, o que seguiriam a carreira de treinador. Para tantos sinais de mau olhado, talvez, Falcão tenha encontrado na Bahia o melhor lugar para reverter a mandinga da Copa da Espanha. Porque, como dizem por aí: "Yo no creo en las brujas, pero existen, existen".
No primeiro jogo um clássico e o cartão de visita do treinador: a estréia da polêmica camisa branca dos últimos dias. Veio de Oxalá, alguém poderia arriscar. Mas, certamente, a elegância sutil de Falcão não escolheu a indumentária por acaso. O catarinense e ídolo gaúcho não trouxe consigo apenas a energia do sul do país. Incorporou o sincretismo religioso tão comum entre os dois estados mais distintos do Brasil, como diria o poetinha. Mas, ele não deixou a sorte do Bahia apenas por conta da superstição. De cara, surpreendeu a crônica esportiva baiana atuando com um time mais leve e solto.
Ao invés dos três volantes recuados do antecessor, Joel Santana, um esquema que avança a marcação e pressiona o adversário no campo de defesa com três meias: Gabriel (direita), Moraes (centralizado) e Zé Roberto (esquerda). Em tempos de Barcelona e posse de bola supervalorizada, o técnico Falcão induzia a imprensa para um jogo cadenciado, que busca sempre o gol. Logo, o Bahia ocuparia a audiência da mídia nacional como o time mais goleador do Brasil.
Aos poucos, o time ganhava corpo. Entrou Magno no time titular e Falcão criou uma outra variação no ataque com Júnior e Souza na frente. Gabriel, dia após dia, deixava o papel de driblador e apoiador pelo lado direito do campo para a condição de garçom, exímio cobrador de bolas paradas. Entre todos os jogadores, talvez, o que mais amadureceu e compreendeu a vontade do treinador. Passou a tocar mais a bola de primeira, deslocar o seu jogo também para o lado esquerdo das quatro linhas e chegar mais perto da grande área. A evolução de Gabriel serviu para alçar um outro jogador: Rafael Donato.
O gigante Donato expressou a maior das mudanças na rotina de treinos do Esporte Clube Bahia imposta pelo técnico Falcão. A repetição exaustiva, as bolas paradas e o redimensionamento do papel exercido pelo zagueiro parrudo. O que foi determinante na reta final do campeonato.
Infelizmente, as opções de Falcão são restritas. Sem laterais disponíveis, tendo Ávine, Willian Matheus e Coelho contundidos constantemente, dois jogadores tiveram a oportunidade de mostrar um pouco mais para o treinador: Hélder e Mádson. O primeiro não desperdiçou a chance, tornando-se desde o início dos trabalhos do Rei de Roma uma das peças essenciais para o novo padrão de jogo proposto pelo treinador. Sem a corrida vertical dos laterais, Falcão abriu mão do esquema com dois avantes, Júnior e Souza. Passou a utilizar Lulinha.
Nas finais contra o arquirrival baiano, fortaleceu a marcação do meio de campo e atuou com Fahel, Diones e Hélder. Observem como Hélder virou uma espécie de termômetro do esquema tático. De lateral improvisado pelo técnico Joel Santana, segundo volante e armador no time de Falcão. Logo, Diones e Fahel também tiveram seus papéis alternados. ambos reaparecendo como referências para o velho elemento surpresa de Telê Santana.
O fato é que Falcão é o maior responsável pela nova postura em campo do Esporte Clube Bahia. Apesar da mística tricolor ter surgido no finalzinho do campeonato baiano, foram as jogadas repetidas em treinos e a consistência tática imposta pelo treinador que venceram o torneio regional. Porém, diferente do período que virou o Rei de Roma, o técnico Falcão não pode entrar em campo hoje. Urge a necessidade de novos jogadores e, especialmente, laterais, meias e atacantes que joguem pela vertical.
Falcão poderia optar pela colorida fitinha do Bonfim, a infalível carranca ou o discreto crucifixo habitual dos jogadores de futebol. Decidiu pela camisa branca. É evidente que a mística baiana aparece. Mas, como diria o filosofo da bola Neném Prancha: "Se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminaria empatado". E terminou: Bahia 3 x 3 Vitória. A diferença é que desta vez Falcão levou a taça, porque, assim como o filósofo John Locke, teve a sensibilidade de encarar o Bahia com as duas medidas necessárias para quem age com a razão e a emoção. Por um lado, a Tabula Rasa de enxergar o mundo como um papel em branco. Do outro, as palavras de quem não explica, sente.
Sócrates Santana é jornalista e torcedor do Esporte Clube Bahia
O gigante Donato expressou a maior das mudanças na rotina de treinos do Esporte Clube Bahia imposta pelo técnico Falcão. A repetição exaustiva, as bolas paradas e o redimensionamento do papel exercido pelo zagueiro parrudo. O que foi determinante na reta final do campeonato.
Infelizmente, as opções de Falcão são restritas. Sem laterais disponíveis, tendo Ávine, Willian Matheus e Coelho contundidos constantemente, dois jogadores tiveram a oportunidade de mostrar um pouco mais para o treinador: Hélder e Mádson. O primeiro não desperdiçou a chance, tornando-se desde o início dos trabalhos do Rei de Roma uma das peças essenciais para o novo padrão de jogo proposto pelo treinador. Sem a corrida vertical dos laterais, Falcão abriu mão do esquema com dois avantes, Júnior e Souza. Passou a utilizar Lulinha.
Nas finais contra o arquirrival baiano, fortaleceu a marcação do meio de campo e atuou com Fahel, Diones e Hélder. Observem como Hélder virou uma espécie de termômetro do esquema tático. De lateral improvisado pelo técnico Joel Santana, segundo volante e armador no time de Falcão. Logo, Diones e Fahel também tiveram seus papéis alternados. ambos reaparecendo como referências para o velho elemento surpresa de Telê Santana.
O fato é que Falcão é o maior responsável pela nova postura em campo do Esporte Clube Bahia. Apesar da mística tricolor ter surgido no finalzinho do campeonato baiano, foram as jogadas repetidas em treinos e a consistência tática imposta pelo treinador que venceram o torneio regional. Porém, diferente do período que virou o Rei de Roma, o técnico Falcão não pode entrar em campo hoje. Urge a necessidade de novos jogadores e, especialmente, laterais, meias e atacantes que joguem pela vertical.
Falcão poderia optar pela colorida fitinha do Bonfim, a infalível carranca ou o discreto crucifixo habitual dos jogadores de futebol. Decidiu pela camisa branca. É evidente que a mística baiana aparece. Mas, como diria o filosofo da bola Neném Prancha: "Se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminaria empatado". E terminou: Bahia 3 x 3 Vitória. A diferença é que desta vez Falcão levou a taça, porque, assim como o filósofo John Locke, teve a sensibilidade de encarar o Bahia com as duas medidas necessárias para quem age com a razão e a emoção. Por um lado, a Tabula Rasa de enxergar o mundo como um papel em branco. Do outro, as palavras de quem não explica, sente.
Sócrates Santana é jornalista e torcedor do Esporte Clube Bahia

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